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Arqueologia da arquitetura e o restauro do Armazém São Francisco

Se você se pergunta como foi o projeto de restauração do Armazém São Francisco, leia este artigo. Conheça o escritório de restauro Ana Luisa Furquim.
imagem de antigo armázem são francisco

A Rua Saldanha Marinho guarda silêncios que a atividade extensiva do comércio diário raramente permite ouvir. O prédio que outrora exalava o cheirinho de pão fresco e abrigava muitas pessoas da imigração síria, o Armazém São Francisco, encontrava-se em estado de ruína.

Restaurar uma ruína urbana não é apenas uma obra de engenharia; é um exercício de Arqueologia da Arquitetura. É o processo de ler, nas camadas de tijolos e nos vestígios de argamassa, a cronologia de uma edificação que se transforma conforme a cidade evolui.

Entenda o diagnóstico do projeto de restauro do Armazém São Francisco

Entre alvenarias portantes e tijolos aparentes restam vestígios de esquadrias de madeira ricamente ornamentadas, paredes em marmorino, azulejos importados, pinturas parietais e pisos de ladrilho hidráulico.

A chaminé, aos fundos, é testemunho da presença de um grande forno e, logo à frente dele, um espaço revestido por azulejos brancos de origem da antiga Tcheco e Eslováquia e pinturas de motivo geométrico, azuis.

Ambiente da padaria revestido por azulejos brancos e pinturas geométricas em tons azuis | dez. 2024. 

Conta-se que ali, nesta sala, havia uma grande mesa, a “masseira”, onde os padeiros concentravam-se, amassando o pão, numa época em que as atividades domésticas conviviam com a lida do trabalho.

Próximo ao forno os profissionais padeiros, tendo à frente o Sr. José Nicolau Abagge | sem data. Acervo familiar

No segundo pavimento, com acesso independente, ficava a residência dos Abagge. Desta história resta apenas as paredes, pois a cobertura, o assoalho entre pisos e os outros elementos em madeira já se perderam. Entre as pinturas parietais é possível perceber que os ambientes da casa eram requintados, cada um com uma decoração diferenciada. 

Dia de festa na família Abagge, ilustrando a rica decoração da sala de jantar | 1950. Acervo familiar.

Acima também ficava a cozinha da família e, aos fundos, ainda resta uma laje – a varanda ou solário.

O grande desafio técnico deste projeto e obra de restauro é: como estabilizar uma ruína que perdeu seus elementos de travamento (pisos e cobertura), transformá-la em um espaço seguro para o uso comercial atual e, ao mesmo tempo, manter a sua história?

Conheça mais: Casarão Furquim: Restauração

Qual a metodologia utilizada para restauro de imóveis históricos? 

Identificação das camadas de cores através de color matching | ago. 2021. Acervo autora.

Para responder a um problema complexo, o restauro alia-se à tecnologia. Algumas das metodologias são:

  • Color matching:

Com as prospecções estratigráficas realizadas manualmente, com bisturi, conseguimos identificar as camadas de cores da edificação. A comparação é feita a olho nu, in situ e em computador, com auxílio de uma paleta de cores conhecida, com intenção de identificar e nomear a cor encontrada.

  • Laser Scanning:

Utilizamos o levantamento por varredura a laser para gerar uma “nuvem de pontos”. Este processo permite capturar a geometria precisa das ruínas, incluindo as deformações das paredes, os desníveis milimétricos dos pisos e os detalhes das esquadrias que ainda resistiam.

  • HBIM:

Essa nuvem de pontos foi a base para a modelagem em HBIM (Heritage Building Information Modeling). Modelar uma ruína em BIM é um desafio técnico, pois softwares paramétricos são projetados para geometrias perfeitas e ortogonais. No restauro, precisamos modelar o “erro”, a inclinação e compreender a degradação.

  • Entender o edifício:

Além da tecnologia, aplicamos a metodologia da leitura estratigráfica. Observamos as juntas entre as paredes:

A) Paredes amarradas: Indicam contemporaneidade de construção.

B) Rachaduras verticais perfeitas no encontro de paredes: Indicam que uma parte foi “encostada” na outra em épocas diferentes.

Essa investigação permitiu montar a Cronologia Construtiva do Armazém São Francisco, identificando o núcleo original de 1930 e suas ampliações posteriores. Sem esse mapa, todo o projeto seria mais dificultoso. 

Qual a solução proposta em canteiro?

A decisão mais crítica em uma ruína de alvenaria autoportante é o sistema estrutural. Originalmente, não havia pilares; os tijolos sustentavam tudo.

Conflito de responsabilidades

Inicialmente, o engenheiro estrutural propôs uma estrutura 100% independente, temendo que as paredes antigas não suportassem a carga. No entanto, o canteiro de obras revelou uma realidade diferente. As paredes de tijolos maciços, apesar de expostas ao sol e chuva por 30 anos, ainda mantinham a solidez.

A solução adotada foi um sistema híbrido por meio de reforço e consolidação: as paredes de tijolos foram tratadas e consolidadas.

Decidimos, junto ao engenheiro chefe do canteiro de obras, apoiar parcialmente as novas lajes de concreto (nos níveis originais) sobre as paredes existentes, utilizando cintamentos que distribuem o esforço.

A cobertura será refeita em telhas cerâmicas, devolvendo as mansardas do telhado, identificadas em fotos aéreas históricas, permitindo o uso do sótão, acessível por um elevador.

Detalhes importantes

O refinamento do restauro ficará por conta das:

A) Esquadrias: o proprietário guardou as peças de madeira remanescentes. Quando possível, elas serão restauradas e reintegradas, preservando a autenticidade da edificação.

B) Ornamentação: Barrados de azulejos vindos da antiga Tcheco e Eslováquia e pinturas decorativas geométricas foram mapeados e serão preservadosin situ ou reintegrados, mantendo a identidade do período eclético.

Então, quais os aprendizados da preservação? 

O restauro do Armazém São Francisco ensinou sobre a viabilidade econômica do patrimônio. O cliente, interessado em vender o potencial construtivo, enfrentou mudanças na legislação municipal durante o processo.

A assessoria técnica em patrimônio foi importante para reaver o potencial perdido via recurso administrativo, provando que um imóvel histórico, quando bem gerido, deixa de ser um “passivo” para se tornar um recurso financeiro rentável.

Concentração de fila para compra da farinha no Armazém São Francisco – terceiro sobrado da direita para a esquerda | déc. 1940. Acervo familiar

Qual o futuro do imóvel?

O projeto foi aprovado para uso comercial. Isso é uma estratégia inteligente do restauro que visa o reuso. Então, preparamos o edifício com infraestrutura moderna (acessibilidade, novas instalações elétricas e hidráulicas, acessibilidade), mas mantemos a espacialidade para que o futuro locatário possa ocupar o espaço sem ferir o patrimônio.

O jardim de inverno, os azulejos hidráulicos e a volumetria original do telhado conviverão com o comércio ativo da cidade, que atrai árabes, chineses, italianos e novos empreendedores.

Quer saber como transformar seu imóvel histórico em um recurso rentável novamente?

O Escritório de Arquitetura Ana Luisa Furquim é especializado em transformar ruínas em projetos viáveis e aprovados, unindo tecnologia HBIM com profundo respeito histórico.

Gostaria que eu fizesse uma análise preliminar da viabilidade do seu imóvel ou ajudasse a entender o potencial construtivo que ele pode gerar?

Ana Luísa Furquim

Arquiteta pela PUC PR, com mais de 20 anos de atuação em restauro, é Doutora pela FAUUSP, Mestre pela UFSC e Especialista pela Università di Ferrara

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