A Rua Saldanha Marinho guarda silêncios que a atividade extensiva do comércio diário raramente permite ouvir. O prédio que outrora exalava o cheirinho de pão fresco e abrigava muitas pessoas da imigração síria, o Armazém São Francisco, encontrava-se em estado de ruína.
Restaurar uma ruína urbana não é apenas uma obra de engenharia; é um exercício de Arqueologia da Arquitetura. É o processo de ler, nas camadas de tijolos e nos vestígios de argamassa, a cronologia de uma edificação que se transforma conforme a cidade evolui.
Entenda o diagnóstico do projeto de restauro do Armazém São Francisco
Entre alvenarias portantes e tijolos aparentes restam vestígios de esquadrias de madeira ricamente ornamentadas, paredes em marmorino, azulejos importados, pinturas parietais e pisos de ladrilho hidráulico.
A chaminé, aos fundos, é testemunho da presença de um grande forno e, logo à frente dele, um espaço revestido por azulejos brancos de origem da antiga Tcheco e Eslováquia e pinturas de motivo geométrico, azuis.

Conta-se que ali, nesta sala, havia uma grande mesa, a “masseira”, onde os padeiros concentravam-se, amassando o pão, numa época em que as atividades domésticas conviviam com a lida do trabalho.

No segundo pavimento, com acesso independente, ficava a residência dos Abagge. Desta história resta apenas as paredes, pois a cobertura, o assoalho entre pisos e os outros elementos em madeira já se perderam. Entre as pinturas parietais é possível perceber que os ambientes da casa eram requintados, cada um com uma decoração diferenciada.

Acima também ficava a cozinha da família e, aos fundos, ainda resta uma laje – a varanda ou solário.
O grande desafio técnico deste projeto e obra de restauro é: como estabilizar uma ruína que perdeu seus elementos de travamento (pisos e cobertura), transformá-la em um espaço seguro para o uso comercial atual e, ao mesmo tempo, manter a sua história?
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Qual a metodologia utilizada para restauro de imóveis históricos?

Para responder a um problema complexo, o restauro alia-se à tecnologia. Algumas das metodologias são:
- Color matching:
Com as prospecções estratigráficas realizadas manualmente, com bisturi, conseguimos identificar as camadas de cores da edificação. A comparação é feita a olho nu, in situ e em computador, com auxílio de uma paleta de cores conhecida, com intenção de identificar e nomear a cor encontrada.
- Laser Scanning:
Utilizamos o levantamento por varredura a laser para gerar uma “nuvem de pontos”. Este processo permite capturar a geometria precisa das ruínas, incluindo as deformações das paredes, os desníveis milimétricos dos pisos e os detalhes das esquadrias que ainda resistiam.
- HBIM:
Essa nuvem de pontos foi a base para a modelagem em HBIM (Heritage Building Information Modeling). Modelar uma ruína em BIM é um desafio técnico, pois softwares paramétricos são projetados para geometrias perfeitas e ortogonais. No restauro, precisamos modelar o “erro”, a inclinação e compreender a degradação.
- Entender o edifício:
Além da tecnologia, aplicamos a metodologia da leitura estratigráfica. Observamos as juntas entre as paredes:
A) Paredes amarradas: Indicam contemporaneidade de construção.
B) Rachaduras verticais perfeitas no encontro de paredes: Indicam que uma parte foi “encostada” na outra em épocas diferentes.
Essa investigação permitiu montar a Cronologia Construtiva do Armazém São Francisco, identificando o núcleo original de 1930 e suas ampliações posteriores. Sem esse mapa, todo o projeto seria mais dificultoso.
Qual a solução proposta em canteiro?
A decisão mais crítica em uma ruína de alvenaria autoportante é o sistema estrutural. Originalmente, não havia pilares; os tijolos sustentavam tudo.
Conflito de responsabilidades
Inicialmente, o engenheiro estrutural propôs uma estrutura 100% independente, temendo que as paredes antigas não suportassem a carga. No entanto, o canteiro de obras revelou uma realidade diferente. As paredes de tijolos maciços, apesar de expostas ao sol e chuva por 30 anos, ainda mantinham a solidez.
A solução adotada foi um sistema híbrido por meio de reforço e consolidação: as paredes de tijolos foram tratadas e consolidadas.
Decidimos, junto ao engenheiro chefe do canteiro de obras, apoiar parcialmente as novas lajes de concreto (nos níveis originais) sobre as paredes existentes, utilizando cintamentos que distribuem o esforço.
A cobertura será refeita em telhas cerâmicas, devolvendo as mansardas do telhado, identificadas em fotos aéreas históricas, permitindo o uso do sótão, acessível por um elevador.
Detalhes importantes
O refinamento do restauro ficará por conta das:
A) Esquadrias: o proprietário guardou as peças de madeira remanescentes. Quando possível, elas serão restauradas e reintegradas, preservando a autenticidade da edificação.
B) Ornamentação: Barrados de azulejos vindos da antiga Tcheco e Eslováquia e pinturas decorativas geométricas foram mapeados e serão preservadosin situ ou reintegrados, mantendo a identidade do período eclético.
Então, quais os aprendizados da preservação?
O restauro do Armazém São Francisco ensinou sobre a viabilidade econômica do patrimônio. O cliente, interessado em vender o potencial construtivo, enfrentou mudanças na legislação municipal durante o processo.
A assessoria técnica em patrimônio foi importante para reaver o potencial perdido via recurso administrativo, provando que um imóvel histórico, quando bem gerido, deixa de ser um “passivo” para se tornar um recurso financeiro rentável.

Qual o futuro do imóvel?
O projeto foi aprovado para uso comercial. Isso é uma estratégia inteligente do restauro que visa o reuso. Então, preparamos o edifício com infraestrutura moderna (acessibilidade, novas instalações elétricas e hidráulicas, acessibilidade), mas mantemos a espacialidade para que o futuro locatário possa ocupar o espaço sem ferir o patrimônio.
O jardim de inverno, os azulejos hidráulicos e a volumetria original do telhado conviverão com o comércio ativo da cidade, que atrai árabes, chineses, italianos e novos empreendedores.
Quer saber como transformar seu imóvel histórico em um recurso rentável novamente?
O Escritório de Arquitetura Ana Luisa Furquim é especializado em transformar ruínas em projetos viáveis e aprovados, unindo tecnologia HBIM com profundo respeito histórico.
Gostaria que eu fizesse uma análise preliminar da viabilidade do seu imóvel ou ajudasse a entender o potencial construtivo que ele pode gerar?