Inicio Arquitetura Casarão Furquim: a urgência silenciosa que ronda as casas de madeira do Paraná

Casarão Furquim: a urgência silenciosa que ronda as casas de madeira do Paraná

Entenda sobre os desafios do Projeto de Restauro do Casarão Furquim: preservar a originalidade de uma casa de araucária, espécie de madeira extinta cujo sistema construtivo é um dos motivos que levou ao seu tombamento.

No alto de um terreno em Rio Branco do Sul, onde a mata de araucárias ainda marca o horizonte, a comunidade segue repetindo um gesto antigo: ao visitar o Museu Sara Furquim, muitos moradores chegam trazendo bolo, café ou alguma lembrança caseira. É um ritual simples, mas carregado de significado. A casa, que já abrigou uma escola e acolheu gerações de crianças, continua sendo percebida como um lugar de afeto, legado da querida dona Sara Furquim  — e essa relação explica por que o restauro desse bem tombado mobiliza tantas camadas de cuidado.

Esse vínculo comunitário cria um paradoxo conhecido por quem trabalha com patrimônio: locais carregados de memória permanecem vivos enquanto  permanecem íntegros. Quando deterioram, silenciosamente se afastam das pessoas. Quando são restaurados sem critérios, correm o risco de perder o que os torna únicos. E quando avançam sem manutenção, podem desaparecer.

É nesse ponto que o Casarão Furquim se encontra hoje. A fase de projeto revela tanto os desafios técnicos quanto a urgência de conservar bens semelhantes no Paraná — especialmente as casas de tábua e ripa, típicas dos imigrantes europeus, cujas madeiras de araucária já não podem ser substituídas da mesma forma que no passado.

O desafio da espécie Araucaria angustifolia

A madeira utilizada na construção do Casarão Furquim, em 1929, foi a de espécie araucária, assim como de outras casas da mesma tipologia. A araucária é uma madeira de baixa densidade e o ataque severo de cupins comprometeu peças estruturais, de vedação e esquadrias. A umidade, favorecida pela posição da casa no sopé do morro, agravou danos que se acumulam há décadas. A pergunta que guia a equipe técnica é direta: como preservar o sistema construtivo original, um dos principais motivos de seu tombamento, quando parte desse material já não existe mais para reposição?

A resposta não está na busca por araucárias — afinal, a espécie é protegida e seu corte é proibido — mas no diagnóstico apurado e na compatibilidade de soluções contemporâneas que respeitem as regras do jogo patrimonial. É essa combinação que permite recuperar a integridade da casa sem produzir uma réplica. O restauro não copia o passado: ele o sustenta.

Casarão Furquim: fotografia da autora em 2025.

Um sistema construtivo que conta histórias

As casas de tábua e ripa guardam engenhosidades discretas. As tábuas verticais com ripas cobrindo as juntas, o telhado cerâmico de duas águas, as varandas alpendradas, os lambrequins que funcionam como pingadeiras. No Casarão Furquim, a investigação revelou algo ainda mais valioso: a cobertura formada por peças unidas por encaixes, todas elas com marcação em números romanos — sinais de que cada conjunto estrutural foi montado com precisão artesanal.

Os barrotes originais, alguns com 13 metros de comprimento, lembram que uma única árvore sustentava grandes extensões da casa. Hoje, compreender esse sistema é compreender o que deve ser preservado.

Papel do levantamento cadastral e diagnóstico no restauro do Casarão Furquim

Um restauro sério começa com uma leitura minuciosa do objeto. No Casarão Furquim, foram realizados levantamento por varredura a laser e modelagem BIM, permitindo um cadastro preciso e capaz de orientar cada decisão. A pesquisa histórica reuniu relatos da família e documentação local. Ensaios e inspeções conduzidos por especialistas confirmaram que grande parte das peças ainda é original de 1929.

A avaliação estrutural segue critérios consolidados em normas europeias, aplicadas para verificar a capacidade de carga atual e projetar reforços compatíveis com o uso contemporâneo — no caso, o museu aberto à comunidade.

Desafios ao longo do processo

Além do estado da madeira, outros pontos exigem soluções cuidadosas:

– A água de drenagem natural do morro impõe medidas de manejo para reduzir umidade e garantir longevidade.
– A acessibilidade deve ser incorporada conforme a legislação vigente, conciliando rampas, corrimãos e largura de portas com o impacto visual permitido em bens tombados.
– O sótão, hoje inacessível e com risco de queda, demanda estudo específico.
– Toda intervenção precisa dialogar com os valores afetivos que fazem o casarão permanecer significativo para Rio Branco do Sul.

Esses desafios não são obstáculos — são exatamente o que torna o projeto de restauro um ato de responsabilidade cultural.

Projeto da Arquitetura e Restauro: possibilidades

Ainda em fase de projeto, as soluções finais serão determinadas a partir do diagnóstico consolidado. O norte, porém, já está claro: conservar o máximo possível do original, reforçar o que for necessário, substituir apenas quando inevitável e garantir que o uso atual — museu, lugar de memória e ponto de encontro — seja plenamente viável para o presente e para o futuro.

Por que é importante a conservação da Casarão Furquim?

O Casarão Furquim não é apenas um caso isolado. É um exemplo do que centenas de casas de madeira do Paraná enfrentam hoje. Algumas esperam ajuda. Outras já perderam suas características. Outras resistem por pouco.

A urgência pela conservação desses bens não nasce de nostalgia, mas de lucidez: eles explicam a trajetória da imigração, mostram modos de construir que não existem mais e sustentam vínculos comunitários que valem tanto quanto a madeira que os ergue.

Este texto abre uma série sobre processos de restauro — uma tentativa de tornar visível o que acontece entre o diagnóstico e a obra, entre o que se quer preservar e o que o tempo insiste em desgastar. Se o patrimônio sobrevive quando a comunidade o reconhece, então também sobrevive quando entendemos o que significa restaurá-lo.

Casarão Furquim: como devolver a originalidade a uma casa de araucária quando a própria madeira está em extinção?

O Casarão Furquim, em Rio Branco do Sul, é uma peça rara da arquitetura típica dos imigrantes europeus no Paraná. É também um ótimo exemplo de como o restauro não depende apenas de técnica — exige compreensão profunda de contexto, memória, materiais e futuro de uso. No nosso trabalho, acreditamos que um imóvel histórico carrega um coração. Quando ele volta a pulsar, algo se reorganiza na comunidade.


No Casarão Furquim, esse gesto começa por uma pergunta difícil: como preservar a lógica construtiva de uma casa feita em araucária quando esse material já não pode mais ser cortado?

O escritório de Arquitetura Ana Luisa Furquim pode te ajudar a contar sua história

O Casarão Furquim mostra que restaurar é tomar decisões difíceis com base em diagnóstico sólido, respeito ao sistema construtivo e clareza sobre o que deve ser preservado. Mas mostra também algo que vai além da técnica:
quando uma casa como essa volta a respirar, a cidade inteira respira junto.

Ana Luísa Furquim

Arquiteta pela PUC PR, com mais de 20 anos de atuação em restauro, é Doutora pela FAUUSP, Mestre pela UFSC e Especialista pela Università di Ferrara

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